Madrugada de sábado, nebulosa e fria, cidade deserta mas eu tinha uma missão. Não poderia desapontar meus companheiros por um medo banal. Encarei o desafio de me locomover até o casarão onde encontrava-se o perigo, na zona oeste da cidade.
Horas de viagem, um frio que fazia meu corpo sentir como se facas o perfurassem, mas eu estava ali, firme e forte em busca da coragem.
Cheguei a meu destino. O pavor me dominava, meu corpo tremia, com respiração ofegante encarei a escadaria escura e com um odor que me recordava os tempos dos castelos medievais.
O silêncio me apavorava ainda mais, quando, no meio do caminho, encontrei quem tanto viria a me acalmar e tranqüilizar. Sozinha não estava mais, e o grupo me confortava por saber que éramos a maioria.
Sentados em uma sala, observávamos cada movimento que nos parecia estranho, quando de repente, ELA se aproximou. A sensação foi estranha. Não senti vontade de gritar, correr. Simplesmente senti minha alma fora de meu corpo, inerte sobre a cadeira. Não sentia mais a pulsação, estava observando a situação de fora, mas o perigo me encarava. A GOSMA partia para perto de mim. Sua cor azul sobressaía sobre as outras tonalidades. Diante daquilo, tudo me pareceu branco e sem vida. De consistência quase gelatinosa, tremia cada vez mais. Cada movimento era um soco em meu coração. Foi quando retornei a realidade e percebi que teria de enfrentar aquilo. Não havia para onde fugir, como combatê-la?
Durante horas a fio, permanecemos todos ali. Nós, perplexos com o olhar fixo nela, ela, com seu gingado ameaçador fixa em nós. Havia uma barreira invisível nos separando, e eu aguardava ansiosa o momento em que se rompesse e nos dominasse para a escuridão.
Momentos de nervosismo acabaram passando para uma calmaria quase inabalável. Ao encará-la e mostrando quem tinha o poder, ela foi se reduzindo a nada. Perdendo o viço e a viscosidade. Acabou por nos parecer apenas uma camada circundante. O medo passou e a sensação de vitória tomava cada vez mais conta do meu eu. Satisfação por, sem ao menos uma batalha, apenas com a expressão corporal, termos ganho a guerra. Sem receio de dar-lhe as costas, levantei-me e retornei ao meu aconchego. Horas de viagem, agora com um sorriso interno que me exacerbava de tanto tentar transparecer. Alívio. Tranqüilidade.
Mas ela não foi por inteiro derrotada. Aguardo o próximo confronto com a sensação de que ela retornará com mais poder, mais vida e atitude, e aí sim, haverá uma batalha sanguinolenta, que, se depender de mim, só terminará quando uma das partes vir a desfalecer.
